Panela sem Pressão

Foto 1: Shaq Johnson do Flamengo é marcado por Mogi do Bauru(Crédito: Andrews Clayton/Bauru Basket)

A semana é decisiva para o Flamengo. O time da Gávea encara duas vezes o arquirrival Sesi-Franca: uma pelo NBB, no dia 15, terça-feira, e outra pela semifinal da Basketball Champions League Américas, na sexta, dia 18. Isso para tentar a vaga na grande final, no dia 19, sábado, contra o vencedor da partida entre Boca Juniors e Instituto Córdoba. Vencer hoje o Bauru garantiria a segunda colocação do NBB, e o jogo de terça contra o Franca viraria um amistoso.

E foi exatamente isso que os comandados do técnico Sérgio Hernandez fizeram. O Flamengo foi ao ginásio Panela de Pressão e venceu o time da casa por 88 a 84. O jogo, que marcava a partida número 600 dos bauruenses, era crucial para ambos os times. O Bauru precisava vencer para se desgarrar do complicado grupo que vai do 4º ao 7º colocado no NBB — times com 16 vitórias — e chegar ao decisivo jogo de quinta-feira contra o Vasco com menos pressão. Não deu para o time de Alex. O Flamengo foi melhor, mesmo quando esteve em situações complicadas na partida. O time do armador Alexey Borges manteve o controle.

Novamente, Alexey foi o destaque, com 25 pontos e 7 assistências. Shaq Johnson esteve bem (16 pontos), mas deu um susto na torcida rubro-negra ao errar dois lances livres com 17 segundos restantes, com o placar em 87 a 84 para o Flamengo. Jonathan Luz foi fundamental e pegou o rebote que decidiu a partida. Pelo lado do Bauru, o time teve Andrezão como principal arma. Alex (8 pontos) e Brite (12 pontos) estiveram bem apagados.

Nem tudo são boas notícias para o Flamengo de Sérgio Hernandez. Mais uma vez, a defesa do time não conseguiu parar o pivô adversário. Isso já havia acontecido contra Brunão, do Paulistano (lembre aqui), e hoje, contra o Bauru, com Andrezão (23 pontos, 13 rebotes e 6 assistências). O Flamengo encara agora Wesley, do Franca, que já deu trabalho na final do NBB no ano passado. Ponto total de atenção aqui para os rubro-negros.

Como o jogo de terça virou um “amistoso de luxo”, o Flamengo tem que fugir das armadilhas de um jogo como esse. Sair de Franca com um resultado acachapante pode influenciar nos humores da torcida para o jogo de sexta, a semifinal da BCLA. E o Flamengo vai precisar de cada um dos seus torcedores para vencer o Franca na sexta.

Por enquanto, o adversário do Flamengo nos playoffs do NBB é o Caxias. O time do Sul ainda tem dois jogos a disputar (Corinthians e Pinheiros — 16 e 18 de abril), fora de casa.

O Flamengo de Sérgio Hernández

Oveja aponta o caminho do Flamengo contra o Brasília (Crédito: Matheus Maranhão / CAIXA Brasília Basquete @mmaranhaofoto)

Uma anedota corria entre a torcida do Flamengo que acompanha o time de basquete. Depois que o técnico Gustavo de Conti saiu do comando da equipe (leia aqui) e Sérgio Hernández assumiu, o time passou a ter momentos brilhantes… somente a partir do terceiro período (lembre dois exemplos aqui e aqui).

Não mais. O Flamengo foi dominante do início ao fim contra o bom time do Brasília, na noite de terça-feira (8), e venceu pelo placar de 88 a 79. Os mais de 6 mil torcedores que foram ao ginásio Nilson Nelson, no Planalto Central, viram uma atuação segura, com os armadores Alexey Borges e Franco Balbi e o pivô Ruan Miranda se destacando dos dois lados da quadra.

Balbi – 17 pontos – teve atuação destacada (Crédito: Matheus Maranhão / CAIXA Brasília Basquete @mmaranhaofoto)

E não foi um jogo fácil. O Brasília tem um bom time, com jogadores como Anton Cook (23 pontos – 4/9 em arremessos de três pontos), Daniel Von Haydin (10 pontos) e um bom quarto período do veterano Nesbitt (15 pontos), e lutou até o final para virar o placar. Sua produção ofensiva cresceu muito nos dois últimos períodos, mas os comandados de “Oveja” respondiam a todas as corridas do time do Planalto Central com uma rápida cesta ou uma boa jogada defensiva. Neste quesito, não houve jogada mais impressionante que o toco aplicado por Ruan em Bonfim no terceiro período.

Cabe destacar aqui a noite iluminada de Franco Balbi. “El Mago” desfilou em quadra com arremessos certeiros e fechou com 17 pontos, uma de suas melhores marcas na temporada. Inclusive, a formação com os dois armadores em quadra, Alexey e Balbi, funcionou muito bem. Sejamos justos: todo o time funcionou. O segundo lugar no NBB está cada vez mais consolidado com essa quinta vitória consecutiva do Flamengo.

O toco de Ruan em Bonfim foi um dos grandes lances da partida (Crédito: Matheus Maranhão / CAIXA Brasília Basquete @mmaranhaofoto)

Essa vitória traz esperança para a torcida rubro-negra. O time ainda tem dois compromissos pelo NBB — Bauru no domingo e Franca na próxima terça (15) — e o Final Four da BCLA nos dias 18 e 19. Talvez, agora, o time finalmente tenha encontrado sua identidade, como Sérgio Hernández tanto pediu, e possa fechar a próxima semana com um título internacional em casa.

Melhores momentos aqui:


Destaques:

Flamengo
Ruan Miranda – 17 pontos, 7 rebotes
Franco Balbi – 17 pontos

Brasília
Anton Cook – 23 pontos
Nesbitt – 15 pontos
Daniel Von Haydin – 10 pontos


Flamengo e Brasília foi um dos melhores jogos desta 17ª edição do NBB. Em todos os sentidos. Tivemos um Bom jogo e competitivo, público compareceu e as imagens da transmissão estavam ótimas.

Oscilando até o Fim

Franco Balbi ataca a cesta na vitória contra o Paulistano (Crédito: Paula Reis/CRF)

O Rio de Janeiro se despediu da temporada regular do NBB 17 na manhã deste domingo, dia 6 de abril, com a partida entre Flamengo e Paulistano. Um domingo de outono, chuvoso e com jogo no Maracanã do Fluminense à tarde.

Foram 794 espectadores para ver um Flamengo que, ainda em busca de uma identidade, tenta se encontrar em meio à reta final. “Ainda estamos nos adaptando com o Sérgio (Hernandez – atual técnico do Flamengo). Foi uma mudança muito drástica. Uns jogos vamos bem, outros bem mais ou menos”, comentou um sincero Jonathan Luz na saída da partida.

E é exatamente isso. O Flamengo não oscila somente em alguns jogos — o time oscila em todos. O roteiro parece sempre o mesmo: começa mal, com dois primeiros quartos bem abaixo, faz um terceiro quarto muito bom e deixa o adversário “chegar” nos momentos finais do último período. Nada muito diferente do que se viu na vitória de hoje sobre o Paulistano: 70 a 63.

Foi a quarta vitória seguida do time, que agora parte para três partidas complicadas: enfrenta o Brasília (terça às 20h30), Bauru (domingo, dia 13) e fecha a temporada regular contra o Franca, no dia 15.
Depois, vem o Final Four da BCLA nos dias 18 e 19 — e há uma novela aqui, já que teremos Flamengo e Vasco no Maracanã nesse mesmo fim de semana. Aguardemos os próximos capítulos.

O Flamengo começou errando demais — foram 6 erros só no primeiro período — e viu o pivô Brunão, destaque absoluto da partida, dominar o garrafão e os rebotes dos dois lados da quadra. O Paulistano aplicava uma defesa forte e, se tivesse Kevin Crescenzi em um dia melhor nas finalizações, poderia ter complicado ainda mais o jogo.

Falando em pontuação, Shaq Johnson voltou a ter uma atuação abaixo: 1/4 nos arremessos de quadra e errou os 3 de três pontos. Foram dois períodos muito abaixo do Flamengo. E o que isso significa? Períodos abaixo do armador Alexey Borges. Quando Alexey não está bem, o time empaca.

Como tem sido frequente, no terceiro período a história mudou de figura. Alexey marcou nove pontos e o Paulistano começou a ter dificuldades na conversão dos arremessos. No quarto período, o Flamengo chegou a abrir uma vantagem confortável de 8 pontos, quando, mais uma vez, viu o adversário encostar no placar com apenas 3 minutos por jogar.
Desta vez, porém, o susto foi menor, e o Flamengo conseguiu administrar o resultado até o fim: vitória por 70 a 63.


Destaques da Partida

Flamengo:
Jordan Williams – 16 pontos
Alexey Borges – 13 pontos

Paulistano:
Brunão – 17 pontos / 20 rebotes

Na marra, no grito e no coração: Botafogo vence São Paulo no sufoco

O clima no ginásio Oscar Zelaya era de despedida. O Botafogo vinha de uma derrota sofrida na quinta-feira, 4 de abril, contra o Paulistano (85 a 64), que jogou um balde de água fria nas chances da equipe de alcançar os playoffs. O adversário da vez também chegou ao jogo “lambendo feridas”. No mesmo dia do confronto entre Botafogo e Paulistano, o São Paulo, comandado pelo técnico Guerrinha, sofreu uma derrota centenária para o Flamengo: 105 a 86. Para muitos, este seria o último jogo do time alvinegro em seu ginásio — e o resultado esperado era o mesmo: uma nova derrota.

Para alegria dos 345 presentes em General Severiano, o Botafogo repetiu a história e venceu o São Paulo nos momentos finais, como aconteceu no NBB 16. Não foi tão dramático quanto os 6 pontos de Thorton (que falta ele faz a este time de hoje) nos últimos segundos da partida de 2024. Mas foi dramático. Afinal, estamos falando de Botafogo e São Paulo — times que, neste NBB 17, têm se especializado em dar sustos em seus torcedores.

Vamos ao jogo. O Botafogo soube impor seu jogo físico com Matias e Alcassa, castigando o São Paulo. O único jogador do Tricolor que tentava equilibrar a força dos donos da casa era o pivô Ansaloni — que acabou com um curativo no rosto após mais um encontrão com o pivozão Matias. Com a fisicalidade em alta, o Botafogo venceu o primeiro período por 25 a 19. O estrago só não foi maior porque o armador Ricardo Fischer, do São Paulo, acertou duas bolas de três e deu uma bela assistência para Bennett.

No segundo quarto, o Botafogo começou a cair fisicamente. Era a brecha que o São Paulo precisava — e o time tricolor encostou no placar. Ajudou também a reação a falta técnica cometida pelo armador Matheusinho, do Botafogo. O técnico Sebá Figueredo não teve escolha e mandou seu “coringa” para o banco. Os times desceram para o intervalo com o Alvinegro ainda à frente: 52 a 44.

O terceiro e o quarto períodos foram bem parecidos. O São Paulo cometeu erros — foram nove desperdícios de bola nos dois últimos quartos — e o Botafogo soube aproveitar. O jogo foi empatado em 85 a 85 após um belo floater de Ricardo Fischer. Com 7 segundos no relógio, Matheusinho (18 pontos) sofreu falta e foi para a linha dos lances livres. Acertou um dos dois. Em jogada armada por Guerrinha, André Góes teve a chance da vitória no estouro do cronômetro, mas errou a bola de três.

Placar final: Botafogo 86 x 85 São Paulo.

O Botafogo ocupa agora a 17ª colocação, com 9 vitórias — uma a menos que o Mogi. O Fogão tem uma sequência duríssima pela frente, enfrentando Minas, Franca e Bauru. Precisa vencer alguns desses confrontos para manter viva a chance de chegar aos playoffs.


Já o São Paulo caiu para uma incomoda 14ª posição e tem dois jogos complicados pela frente: o líder Minas e o Brasília.

Seguindo a fórmula

Matheusinho do Botafogo tenta atrapalhar o arremesso de Shaq Johnson Sr. do Flamengo (crédito: Hermes de Paula / CRF)

Flamengo e Botafogo se enfrentaram no último sábado (29) pelo returno do NBB 17, em uma partida que refletiu com precisão o momento de cada equipe na competição. Enquanto o Botafogo tenta extrair o máximo do talento disponível em quadra, o Flamengo continua apresentando dificuldades no início das partidas. Os times parecem seguir uma fórmula pré-definida.

Não há como esperar grandes mudanças neste momento da temporada. Estamos nos aproximando dos playoffs do NBB e do Final Four da BCLA. As surpresas e ajustes típicos de temporada regular já ocorreram — ou não, como é o caso do Botafogo. Infelizmente, para o torcedor alvinegro, a classificação para os playoffs ficou bastante complicada. A situação é preocupante. O Fogão tem uma tabela dificílima: joga em casa contra Paulistano e São Paulo e encerra a temporada regular enfrentando apenas Franca, Minas e Bauru. Para se classificar, o time precisa vencer, no mínimo, os dois confrontos em casa e torcer por tropeços de Mogi e Caxias. É possível, mas o Botafogo costuma se perder em momentos-chave, como aconteceu na partida contra o Flamengo.

Já o Flamengo enfrenta uma crise de identidade. O time ainda não assimilou completamente o estilo do técnico Sérgio “Oveja” Hernández e parece sentir a sombra de Gustavo de Conti em sua mentalidade. A defesa, um dos pilares da equipe, teve uma queda visível de rendimento. Um exemplo claro foi a partida de sábado contra o Fogão: o rubro-negro sofreu 26 pontos logo no primeiro período. Contra Vasco e Botafogo, o Flamengo conseguiu virar o jogo, mas diante de adversários mais fortes, como o Minas, acabou sendo derrotado de maneira acachapante (94 a 70). O alerta amarelo está ligado na Gávea.

Os dois primeiros quartos só não foram uma tragédia completa para o Flamengo porque Shaq Johnson Sr., o melhor jogador em quadra, estava inspirado. Foram 15 pontos, com 4/5 nos arremessos de três pontos, fundamentais para manter o time na partida. No caminho para o vestiário, a equipe sabia que não estava com a intensidade necessária — tanto que demorou a retornar para a quadra no terceiro período.

Mesmo com uma melhora no início do quarto, o Botafogo, liderado por Matheusinho, seguiu incomodando o Flamengo, que teve uma atuação discreta de seu melhor jogador, o armador Alexey Borges (4 pontos e 8 assistências). As equipes entraram no último período com uma vantagem de apenas dois pontos para o Flamengo: 63 a 61. Contudo, para poupar Matheusinho, o técnico Sebá Figueredo foi obrigado a tirá-lo no começo do quarto. A ausência de Matheusinho, somada a decisões questionáveis da arbitragem, resultou em um desastre. Em apenas cinco minutos, o Flamengo emplacou uma corrida de 19 pontos, com bolas de três de Siewert e Jordan Williams, praticamente selando a vitória.

Seguindo o roteiro já conhecido deste time do Fla, os jogadores pareciam ter dado a partida como ganha com 3:27 restantes no relógio. Bastou uma sequência de 8 pontos de Derrick para que os 690 torcedores do Fogão voltassem a acreditar em uma virada. Mas não foi suficiente. Final de jogo: Flamengo 92, Botafogo 85.

Destaques da Partida:

Flamengo:
Shaq Johnson Sr. – 23 pontos (5/6 tres pontos)

Botafogo:
Derrick – 19 pontos
Matheusinho – 19 Pontos


Bem-vindo a arbitragem do NBB, Oveja! A arbitragem do jogo conseguiu tirar o técnico do Flamengo do sério na tarde de ontem. No lance em questão, Matias, pivô do Botafogo, pegou um rebote e disputou com diversos jogadores do Fla. Bola Presa, voce diz. Não. Matias chegou a cair no chão, sem nenhum jogador do Fla tocar no Botafoguense e ficar uns bons 7 segundos deitado segurando a bola junto ao corpo. Ao perceber que o juizão não ia apitar os 3 segundos, Matias, espertamente, passou a bola. Na sequencia, Alexey recuperou e passou para Jordan Williams que perdeu a enterrada depois de um toque de Felipe Motta. Era tanta coisa para reclamar que Oveja enlouqueceu. E com razão.


Kaio Gonçalves exagerou na “pimenta”…


Uma diferença ficou clara entre o estilo de Oveja e Gustavo de Conti. No final da partida, uma jogada, no mínimo duvidosa, entre Balbi e Matheusinho foi considerada falta contra o Flamengo. Oveja olhou para a arbitragem, mostrou o movimento de Matheusinho e ponderou com “no,no”. De Conti, neste ponto, iria até o final com uma longa discussão com a arbitragem.


Acompanhe aqui, as exclusivas pós-jogo com Matheusinho do Botafogo:


Entrevista com Martin Fünkele

Na entrevista, Fünkele compartilhou suas reflexões sobre o desempenho da equipe alemã, destacando a química e a coesão que levaram à conquista do campeonato. Ele elogiou a liderança do treinador e a tenacidade dos jogadores, enfatizando como a Alemanha superou desafios formidáveis para alcançar a glória da FIBA World Cup.

Além disso, Martin Fünkele também discutiu o impacto que essa vitória teve na cena do basquete na Alemanha, prevendo um aumento significativo no interesse pelo esporte em todo o país. Ele enfatizou como o sucesso da equipe nacional inspirará a próxima geração de jogadores e fãs.

O terceiro movimento na carreira de Marquinhos

Uma conversa franca com o ala que deixou o São Paulo para jogar no Biguá, no Uruguai

Bruno Lorenzo/LNB
Marquinhos em ação pelo São Paulo. Ele vai fazer falta por aqui Credit…Bruno Lorenzo/LNB

Por PEDRO RODRIGUES

Se fizermos uma lista com os maiores jogadores brasileiros nos últimos 10 anos, um nome com certeza aparecerá: Marcus Vinicius Vieira de Souza, ou simplesmente Marquinhos. Seis vezes campeão no NBB, duas vezes campeão de BCLA, campeão panamericano em 2007, e que agora encara um novo desafio pelo clube uruguaio Biguá. Falamos deste novo desafio, do São Paulo, Flamengo e um pouco de seleção.

NAS QUADRAS: Tudo bem, Marquinhos?

MARQUINHOS: Tudo bem, prazer enorme estar falando aqui com você, falando de basquete, falando da minha carreira. Espero que seja um papo legal.


O bom de conversar com você é que não falta assunto. Então vamos começar pelo momento que você está agora. Na última temporada do NBB, jogando pelo São Paulo, você realizou um playoff maravilhoso e, nas finais, ficou por um jogo de conseguir mais um campeonato. Para surpresa de muita gente, você assinou com o Clube Biguá, da Liga Uruguai. Como foi essa aproximação com os uruguaios? Como está sendo encarar esse desafio?

Vou começar respondendo o que você falou do São Paulo. Realmente, foi um playoff muito legal, ficamos a um jogo de sermos campeões e sem precisar de um complicado jogo 5 dentro de Franca. Jogar lá é muito difícil. A verdade é que um erro meu no jogo 3 foi crucial. Se fôssemos com um jogo de frente para jogar em Franca dois jogos, a chance era muito maior. Mas foi legal nos playoffs, por quê? Porque eu vim de uma temporada de lesão. No começo da temporada operei o joelho devido a uma lesão de cartilagem. Por conta desta lesão joguei o Mundial no sacrifício. A recuperação era de quatro a seis meses. Acabei voltando um pouquinho antes de quatro meses, apressando pra poder jogar o Mundial, que era um grande sonho de ser bicampeão mundial, com a camiseta que é do meu time de coração que é o São Paulo, um projeto maravilhoso. Foi o primeiro título com São Paulo, eu estava lá. Saí do Flamengo multicampeão para um time que ainda era uma incerteza, e acabou ficando no top 3 do Brasil. Foi legal demais e, como falei, bateu na trava ali. Merecia muito, mas Franca também merecia porque fez uma campanha irretocável, tinha grandes jogadores, né?
Quanto ao Biguá, a verdade é que meio que me pegou com surpresa. O Biguá vinha naquele namoro uns dois meses, conversando com um empresário. Eu tinha algumas incertezas, e o que acabou pesando para mim foram duas coisas: primeiro, o atual momento do basquete brasileiro, essa briga CBB, NBB. Tentei escutar os dois lados, mas vi com muitas incertezas, e nesse meio tempo apareceu essa proposta do Biguá. Havia outras ofertas aqui do Brasil. Então eu sentei com a minha esposa, botei na balança e, mais uma vez, mais uma temporada, eu me permiti viver uma coisa diferente: conhecer o basquete uruguaio, que financeiramente está num momento muito legal. Esportivamente também com grandes atletas estrangeiros, o que faz o campeonato crescer. Como você falou recentemente, o São Paulo derrotou o Biguá quando eu estava nesse time. Acho que isso deve ter pesado para eles terem me contratado. Outra questão que pesou foi o lance da Liga Uruguaia não ter viagem – o campeonato deles é jogado só em Montevideo, então são menos jogos. É o que preciso agora nessa reta final de carreira: ficar em lugar tranquilo, seguro, que ainda me permite jogar em alto nível.


Vamos falar da Liga Uruguaia. Está havendo uma mudança no basquete uruguaio. A Liga Argentina tem problemas por conta da situação econômica do país, e o Brasil tem a questão entre a CBB e LNB. Shaq Johnson, que era um cara que estava com um nome muito quente aqui no mercado brasileiro, fechou com o Peñarol, então você tem Peñarol, Biguá, o Hebraica e o Nacional. Ou seja, é uma Liga que está se tornando interessante do ponto de vista de organização e esportivo. Uma das motivações para a mudança foi uma certa curiosidade para ver as mudanças e poder participar de uma coisa nova, um movimento novo, um público novo?

É exatamente isso que me chamou a atenção. O fato novo agora na minha reta final de carreira é o interesse de um time estrangeiro que tem ambição de ganhar o campeonato nacional. E botou toda a expectativa para eu tentar capitanear o time, chegar lá na final, ganhar o campeonato, brigar pela Sul-Americana. Falei com o presidente do time duas vezes, os jogadores do time ligaram para mim, o técnico, o GM. Foi decisivo este carinho, esse acolhimento que todos passaram para mim, a confiança, junto com a cidade, que é muito legal. Segura, bonita, parece uma cidade europeia, mais esse lance de não ter que viajar, jogar, e dormir todas as noites na sua casa, um campeonato espaçado, com poucos jogos, acho que tudo isso me chamou a atenção e me fez aceitar o convite.


E vocês ainda não estão na Sul-Americana?

Não, eles já falaram que vão jogar na Sul-Americana.

A BCLA (seria como a Libertadores do basquete Sul-Americano) ficou com o Nacional e a Hebraica, né? Quem sabe você faz uma visitinha por aqui. Não sabemos quais serão os times brasileiros, vamos falar mais adiante.

Muita incógnita, não é?


Vamos falar de coisa boa antes da começar a falar de coisas chatas. Vou tentar falar isso com cuidado porque há pessoas com ouvidos sensíveis. Você é muito identificado com o Flamengo, fez parte de uma geração supervitoriosa pelo Flamengo, mas existe uma coisa chamada trabalho autoral, um trabalho mais emotivo, mais do coração. Estive na final da BCLA aqui no Rio, entre o São Paulo e o Biguá, já vi alguns campeonatos seus, assisti à vitória no NBB, quando o Flamengo ganhou em 2019 foi uma explosão, aquela virada maravilhosa contra o Instituto Cordoba, em 2020, o último jogo antes da pandemia. Mas naquela vitória do São Paulo sobre o Biguá, você estava numa felicidade impressionante. Chegava a ser quase uma felicidade infantil, foi muito legal de se ver. Agora, depois da saída, dá para quantificar o quão importante foi esse projeto do São Paulo para você?

Bem, logo que o São Paulo subiu para Liga Ouro, eu tinha acabado de renovar meu contrato com o Flamengo por mais dois anos. Então eu já tinha o convite lá atrás, sou muito amigo do Rossi, que é o cara que era o braço direito do São Paulo (agora não está mais na frente do projeto), nas contratações. Sempre fui amigo dos Mortari, o Bruno Mortari, o Claudio Mortari. Mas ainda tinha vínculo com o Flamengo, e falei que só ia conversar com eles quando o vínculo acabasse. Quando fomos campeões em cima do São Paulo, no finalzinho da pandemia, estava aquela briga com o Flamengo porque eu queria ser valorizado, e fui um dos jogadores menos valorizados no processo da pandemia. Fui um dos jogadores que tiveram o salário descontado bruscamente, os outros jogadores tiveram o salário cortado por 22%, eu tive 46% de salário. Falei que queria ser atribuído porque estava acreditando que ia voltar ao normal, mas não vi toda essa transparência de algumas pessoas. Acabei optando pelo São Paulo, que tinha um projeto pronto para ser campeão, acreditei muito porque quando eles falaram da montagem do time, tinha possibilidade do Bruno Caboclo vir também. Acreditei muito e acho que o lado torcedor falou muito forte. Porque eu sou São Paulino daquele São Paulino de ir no Morumbi, eu e meu irmão saíamos da faculdade, faltávamos algumas aulas, íamos para o Morumbi, ele viu o semifinal de Libertadores, meu irmão dirigindo a bizinha [N.R. uma moto antiga] que ele tinha para cortar trânsito em São Paulo. Até demos carona para um cara de dois metros, todo encolhido na bizinha. Vimos o São Paulo ganhar do time mexicano, eu vi aquele título. Esse lado torcedor falou muito alto. Falaram que estava saindo de um time multicampeão para um time que acabou de ser campeão do seu time. Todo mundo viu como o São Paulo cresceu em dois anos, como São Paulo brigou de frente a frente com Franca, que era o time a ser batido, despachou o Flamengo com 3 a 0, onde ninguém acreditava, foi campeão do BCLA, onde o campeonato estava todo, vamos dizer, moldado para o Flamengo ser campeão em casa, fomos campeões invictos desse campeonato. Então, valeu muito a pena, e quando você diz, “eu vi um Marquinho como criança chorando, abraçando o presidente, abraçando as pessoas, muito feliz”, porque foi um mix de sentimentos que juntou o time de coração, ser campeão na cidade, tudo o que aconteceu para não renovar com o Flamengo. Juntou tudo isso e eu falei, cara, está realmente acontecendo. Então, acho que foi difícil de conter a emoção por causa de tudo isso.


Até as derrotas do São Paulo foram marcantes: temos que lembrar o Super 8, que o Flamengo acabou ganhando, seu amigo Olivinha foi MVP que ganhou, não, perdão, isso foi no ano anterior de você chegar. Houve uma derrota para o Flamengo aqui no Rio, no Super 8, que você e Bennett acabaram com o jogo, foi uma coisa maravilhosa, e o NBB do ano passado, a famosa jogada do coelho que até hoje é estranha.

A jogada do coelho? Ah, sim, sim, o da Franca?


É isso.

Ah, sim. Acho que essas derrotas só foram jogar gasolina no fogo, só foi combustível a mais, porque assim, muitos dos jogadores ali não teriam ganhado o Super 8, o Paulista, o NBB, muito menos BCLAA. Então, tinha que ver como eram nossos treinos. O nível de competição era altíssimo entre a gente.
A gente treinava muito coletivo e acho que era um time totalmente diferente dos times de jogada, era muito mais talento, muito mais momento de entender o que está acontecendo e acho que isso acabou surpreendendo a muitas pessoas.


Esse jogo do Super 8 me marcou muito, porque vocês ficaram por um fio de cabelo, foi aquela jogada do Betinho no final que foi assim, por um fio de cabelo ali.

Na verdade, foi o rebote que o Tulio pegou, não foi? E a gente recuperou, chegou a estar perdendo creio que de 13 pontos, corremos muito e pouca gente se lembra, é muito difícil quando você fala que ficou por um fio. O São Paulo sempre jogou com muitas lesões. Vou dar um exemplo nessa série que foi marcada pelo Coelho: no primeiro jogo, não jogamos com o Tyrone que estava com febre de 40 graus. Foi eu jogando de pivô, acabou com o jogo de pivô e foi um jogo pau a pau, ganhamos no final. Aí volta para o Morumbi, ganhamos o segundo jogo, acabamos perdendo o terceiro e aí veio um emblemático jogo 4.
No Super 8 também jogamos sem o Tyrone, que estava com lesão de tendão de Aquiles. Aquele jogo que o time estava perdendo, ganhando o jogo todo, aconteceu todo aquele fuzuê do Flamengo, com falta técnica de qualificante no Bruno. Estávamos ganhando o jogo de quase 20 pontos e aí no terceiro e quarto aconteceu todo aquele auê e o jogo mudou. O que tenho a dizer é que todas essas coisas só serviram de motivação para o São Paulo conseguir os títulos.


E parabéns porque realmente foi um trabalho fascinante. O São Paulo trouxe para o basquete de novo nomes como Georginho, Lucas Mariano, e já foi logo campeão paulista no seu primeiro ano. É um bom trabalho porque tem gente do ramo?

E é muito doido, já que dos últimos quatro NBB, três MVP saíram do São Paulo: Georginho, Lucas Mariano e Caboclo. Veja o exemplo do Georginho. O São Paulo recuperou o Georginho, que estava no Paulistano. Lucas Mariano reencontrou aquele amor pelo jogo, foi para Franca, depois teve duas temporadas brilhantes. Caboclo acabou de ser campeão alemão e está jogando muito bem na seleção. Então, acho que indiretamente o São Paulo contribuiu muito para o basquete brasileiro.

Vamos falar de dois dos seus companheiros recentes de campeonatos, o Yago, pelo Flamengo, e agora o Caboclo no São Paulo, que estão na Seleção Brasileira. O Brasil vai começar agora a participação na Copa do Mundo. São dois jogadores antagônicos porque o armador Yago é muito rápido, e o Caboclo, um talento absurdo. Como foi conviver com eles no período do Flamengo e no período do São Paulo, e o que você projeta para essa Seleção Brasileira para o Mundial?

Vamos lá. São dois jogadores totalmente diferentes. O Yago é um cara que acredita muito no “eu sou capaz, eu vou fazer, eu vou fazer acontecer, não interessa o meu tamanho, eu vou lá, vou brigar com um cara de dois metros, que marca, que dá toco, não interessa, eu vou fazer e vai acontecer”. E acho que todos esses últimos anos dele mostram isso. De um cara que quer mais, que quer vencer na carreira, não aceita limite, e ele vem fazendo muito isso, muito bonito, e acho que acompanha toda essa história. Joguei com o Yago no ano em que ganhamos tudo [N.R.: foi o time do Flamengo de 2021]. Vejo a fantástica evolução dele, ele brilhando na Europa, clico todos os posts dele, curto porque é muito legal. Ele jogando na Summer League pelo Chicago foi legal demais, vi o jogo, um menino feliz, que joga um basquete alegre e passando por cima de todos os limites.
Então eu acho que essa dupla Yago e Caboclo tem dado muito certo, acho que eles se conectam muito bem. E falando do Caboclo, é o que você falou: o cara é talento puro. Uma envergadura absurda. Ele é um cara que pode jogar de três, de quatro, de cinco. Ele tem jogado muito de cinco e tem se destacado porque ele está forte fisicamente. O basquete mundial não tem mais aqueles caras fortões, tipo Marc Gasol, dos irmãos Gasol, (Rudy) Gobert. Assim, ele consegue marcar um pouco pela envergadura, pelo perfil atlético dele. No São Paulo, eu ajudei muito nessa parte de cabeça, de ser mais profissional, que é o que faltava para ele. Acho que esse último ano na Europa ele mostrou muito isso.
Espero que ele, Yago e outros jogadores façam uma Copa do Mundo de altíssimo nível porque, na minha opinião, muita gente pode até me criticar, mas para mim o céu é o limite para a seleção. O Brasil está muito bem coberto em todas as posições. No basquete mundial, você tem que estar no nível top 100% de todo o jogo. Eu acho que essa seleção com Gustavinho de técnico, com Elinho de assistente, estamos muito bem representados, e não seria nada anormal se eles chegassem a disputar uma medalha. Então, minha torcida é essa, e espero que essa dupla continue fazendo bonito na seleção.

Você comentou na primeira resposta em relação a essa confusão entre a CBB e o NBB. Se para quem acompanha e cobre é chato, imagina para vocês que estão envolvidos nessa história. Até que ponto a ideia de ir para o Uruguai foi falar “cara, olha só, resolva o que você tiver que resolver aí, eu vou cuidar da minha vida porque não tenho mais paciência”. Chegou a esse ponto?

Vou falar mais ou menos porque escutei os dois lados. Eu tive uma proposta do Pinheiros, conversei com o presidente, que é o Rodrigo Montouri, presidente da Liga. Eu estava quase para acertar com Pinheiros, mas algumas questões familiares me disputavam no Rio, eu no São Paulo, essa ponte aérea quando eu estava no Morumbi foi um pouco difícil, então acabei optando por não ir.
E aí, depois, apareceu essa proposta do Biguá, eu acabei aceitando. Recentemente tive uma conversa também com um time que vai jogar o campeonato da CBB , e eles me explicaram o que está acontecendo. Realmente entendo os dois lados da moeda. Só que eu tinha que me decidir o quanto antes. Não tenho mais 30 anos. Pode ser que eu jogue minha última temporada agora no Uruguai, pode ser que jogue mais uma ou duas. Depende de como eu estou fisicamente, como o basquete vem me completando ainda. Então, no meu momento eu não podia esperar para saber o que ia acontecer. Espero que as duas partes façam o basquete brasileiro crescer. Essa é a minha única torcida, entendeu? Eu sinceramente não quero acreditar que o CBB veio para prejudicar o NBB, e sim para ser uma ferramenta a mais para que os jogadores tenham um salário melhor, para o basquete se expandir e melhorar. Eu comentava que o pessoal do NBB fez um trabalho muito legal, que foi a liga de desenvolvimento. Saíram daí jogadores como Raulzinho, Fischer, Felício e Caboclo. Essa seleção inteira é formada por esses caras!
É legal demais tudo o que o NBB fez nesse período que a CBB ficou off do basquete, vamos dizer assim, financeiramente. Espero que sinceramente eles não venham para atrapalhar todo esse trabalho que foi feito pelo NBB.
Que a gente caminhe de um outro jeito, que seja uma ferramenta a mais, um campeonato a mais para muitos jogadores que param ali no final da LDB, que não têm mais clube, que possam jogar nesse campeonato do CBB, que possam continuar essa trajetória. Porque a gente sabe como fazer basquete no Brasil é difícil. Eu espero que esse vento agora sopre uma direção que seja a mudança para o bem do basquete brasileiro.