Obrigado, Marquinhos

Da área de imprensa, lá estava eu prestando atenção no que Marquinhos iria fazer

O jogo era decisivo contra o Minas. O ano: 2018. O Flamengo tinha em seu elenco estrelas como Anderson Varejão e Marcelinho. O Minas foi melhor o jogo inteiro e tinha a vitória nas mãos. Foi aí que nosso personagem mostrou toda a sua classe em quadra. Depois de decretar a prorrogação ao acertar os 2 lances-livres decisivos, marcou 12 pontos no tempo extra. Era hipnótico ver o camisa 11 marcar com arremessos certeiros e infiltrações que desafiavam a lógica. Até os últimos dois minutos de jogo, eram apenas 5 pontos. Ele fechou com 21 e vitória para o seu Flamengo. Estava na área de imprensa da Arena Carioca 2 vendo de perto Marcus Vinícius Vieira de Sousa, o Marquinhos, mostrar em quadra porque ele é um dos gigante do basquete nacional.

Hoje, 14 de maio de 2025, após a derrota seu último time, o Vasco da Gama, no jogo 3 contra o Minas pelas quartas de finais do NBB, Marquinhos se aposenta aos 40 anos como um dos maiores alas do basquete brasileiro. Carioca de nascença, Marquinhos se mudou para São Paulo aos 9 anos com a troca de emprego do pai. Aos 12, começou a jogar a basquete. Começou na categoria infantil do Monte Líbano, mas com o fim das atividades do clube passou para base do Corinthians. Em 2002, recebeu um convite para o Bauru onde conheceu Leandrinho e fez parte do time que foi campeão brasileiro daquele ano. Apesar dos convites de faculdades americanas, em 2003, preferiu ir para a Europa onde jogou no Pesaro. Foram diversas idas e vindas com o clube Europeu, intercalada com períodos que foi emprestado para o Vasco (2003), Corinthians/Mogi das Cruzes(2004) e por fim, o clube Italiano, o Sutor Montegranaro. Em 2005/2006, o Pesaro passava por uma grave crise financeira e Marquinhos fechou com o São Carlos.

Em 2006, após realizar todo período de preparação para o draft da NBA, foi selecionado pelo New Orleans Hornets. Como é atualmente, não era uma boa época para o Hornets. Nem na Louisiana, o time jogava. Devido ao furacão Katrina, o time jogava em Oklahoma City. No comando do basquete a situação também não era boa. O time não era o melhor lugar para desenvolver jogadores jovens e aposta em veteranos para ajudar o astro Chris Paul. Nesta leva, o time contrata Peja Stojaković para a posição de Marquinhos. Na temporada 2007/2008 foi trocado para o Memphis Grizzilies Frustrado com pouco tempo em quadra e a troca para o Memphis, assina com o Pinheiros em 2008.

Aqui começa a história de Marquinhos e o NBB. Assim como o jogador que procurava uma plataforma para desfilar os seus talentos, o recém-nascido NBB precisava de talentos como Marquinhos para mostrar que o basquete brasileiro estava vivo. Em 2012, ao chegar no Flamengo, o camisa 11 (em homenagem a Romário) decolou. Nos 9 anos que jogou no Rubro-negro venceu 3 premios de MVP (2013/2016/2019), 6 vezes campeão do NBB (2013-2016 e 2019), a Liga das Americas e o Mundial em 2014. Não só venceu, como foi o protagonista na década rubro-negra do NBB.

Sua saída do Rubro-negro em 2021 foi conturbada com atritos com o técnico Gustavo de Conti e uma rusga com a diretoria. O que era uma má notícia para o Flamengo, foi uma ótima notícia para o São Paulo. O jovem projeto de basquete do tricolor paulista ganhava não só um craque como Marquinhos, como um torcedor apaixonado.

Durante muito tempo, vi Marquinhos jogar pelo Flamengo. Vi momentos em que o jogador realmente não parecia feliz como na Sul-Americana de 2016 e vi momentos de felicidade como a virada contra o Instituto Cordoba em 2020. Agora, ver uma felicidade pueril, quase de uma criança, só vi quando Marquinhos conseguiu, vestindo a camisa do São Paulo, levar o tricolor para o título da BCLA. Era um misto de felicidade junto com um “não acredito” que a vida tomou esse rumo. A felicidade em estado puro. Além do Bauru de 2002, do Flamengo de 2012 a 2021, aquele time do São Paulo 2021 com Caboclo, Bennett era mais um time iconico do craque.

No Vasco, sua última passagem, trouxe legitimidade ao projeto de basquete do Cruzmaltino. Sua passagem “acelerou” o processo de maturidade do projeto e deixou sementes que esperamos ser colhidas por muito tempo no basquete vascaíno.

O duro para o basquete nacional é que não existe um novo Marquinhos. Nem de perto. Em quadra, não temos um ala pontuador e decisivo e fora dela, não temos um talento nascente que possa ser o próximo nesta linhagem de grandes alas.

O engraçado de quem acompanha basquete é que você passa grande parte do seu tempo, dias, meses, anos, acompanhando pessoas que não necessariamente são da sua família ou mesmo tem relações de amizade. Vai ser estranho não ter Marquinhos em quadra pelo NBB. Ele é tão parte intrínseca do campeonato. Ele é parte pelas suas cestas, pelas reclamações da arbitragem, pelos lance-livres milimetricamente batidos após os dois pequenos beijos nos pulsos. O que mais sentirei falta é quando uma partida estiver complicada e a bola sobrar para o camisa 11 fazer aquele arremesso perfeito de 3 pontos, olhar para o lado e falar em uníssono com meus companheiros de cobertura: Marquinhos joga para c*****!