Jogão

O jogo 1 entre Flamengo e Franca foi um jogaço (Marcos Limonti / SFB)

Que Minas e Bauru me perdoem, mas a final do NBB deste ano será a semifinal entre Flamengo e Franca.
Se essa já era a impressão antes da bola subir para o jogo 1, ela se confirmou depois de assistirmos a um dos melhores jogos da temporada do NBB.

O Flamengo foi ao Pedrocão e venceu com autoridade o Franca por 107 (!!!) a 93. Novamente, aplausos para o armador Alexey Borges pelo que fez dentro e fora de quadra. Em quadra, Borges anotou 17 pontos, distribuiu 10 assistências e manteve a intensidade da equipe durante toda a partida. Fora dela, concedeu uma excelente entrevista na virada do primeiro para o segundo tempo. O repórter da transmissão tentou minimizar os insultos direcionados ao jogador pela torcida francana, mas Alexey foi claro e preciso ao afirmar que “alguns passam do limite”. Isso não é um problema localizado em Franca — é sistêmico em todos os ginásios do NBB. A Liga Nacional de Basquete fez um trabalho primoroso ao criar o Tratado Antirracista. Não estaria na hora de uma nova campanha focada na conduta de quem frequenta os ginásios? Fica a pergunta…

Shaq Johnson Sr. foi o cestinha (Marcos Limonti / SFB)

Voltando ao jogo: novamente, o Flamengo jogou melhor fora de seus domínios. A equipe do técnico Sérgio Hernández teve assombrosos 59% de aproveitamento nos arremessos de quadra (21/36), 55% (!!!) nas bolas de três pontos (17/31) e 82% nos lances livres. Franca não ficou muito atrás, com 64% nos arremessos de quadra, mas os 35% de aproveitamento nas bolas de três prejudicaram o time. Chega a ser estranho ver uma equipe com esse desempenho perder uma partida — o que mostra a dimensão da assertividade rubro-negra.

Deu tudo certo para o Fla. Shaq Johnson Sr. continuou sendo o jogador mais constante nos playoffs e liderou a pontuação da partida com 21 pontos. Ruan fez um ótimo jogo como pivô e deitou e bailou no pick and roll com Alexey ou Balbi. A cereja do bolo foi a atuação em modo BCLA do ala Kayo Gonçalves: 12 dos seus 17 pontos vieram no quarto e decisivo período, com um aproveitamento absurdo — 4 em 4 nas bolas de três pontos. O Flamengo e, especialmente, o jogador, precisavam dessa injeção de ânimo.

Ânimo, aliás, é o que parece faltar ao tricampeão Franca. Ainda é muito cedo na série, mas aquele Franca que vibrava e se reinventava parece uma lembrança distante. Lucas Dias, com discretos 11 pontos, precisa entrar na série para o time voltar à final. Didi foi o cestinha com 18 pontos, seguido por Corvalán (16) e David Jackson (13).

Agora a série vem para o Rio de Janeiro. Os jogos 2 e 3 serão disputados no Tijuca Tênis Clube, na terça-feira, 27 de maio, e na quinta-feira, 29 de maio. Vamos ver como os times irão se comportar. Será que o Flamengo vai novamente “presentear” sua torcida com uma atuação abaixo da expectativa? Será que o Franca vai reencontrar a intensidade e o ânimo que parecem perdidos? Saberemos na terça.

Domingo no Parque

Gui Deodato foi uma das chaves da vitória do Flamengo sobre o Corinthians (crédito: Beto Miller)

Flamengo, você troca a vitória no jogo 4 e uma semana de descanso por um complicado jogo 5, cercado de pressão?” Para alívio da torcida rubro-negra, a resposta foi: “Não!” Em jogo disputado no domingo, 18 de maio, às 10 da manhã (?!?!), o Flamengo venceu o Corinthians por 80 a 78, fez 3 a 1 na série e avançou para as semifinais do NBB 24/25.

Como na brincadeira matutina de Silvio Santos, foi com emoção que o Flamengo passou. Como tem sido hábito nestes playoffs, o time de Sérgio Hernández teve uma excelente atuação fora de casa. Corrigindo: excelente nos dois primeiros períodos (24 a 23 no primeiro e 24 a 15 no segundo). Com Gui Deodato bem nessa parte do jogo (fez 14 dos seus 18 pontos), o Flamengo foi para o intervalo vencendo por 16 pontos.

O Corinthians, que vinha fazendo um playoff muito bom, sentiu demais no segundo quarto e saiu para o intervalo com nuvens nebulosas sobre a cabeça. O cenário realmente não era bom para o Timão. A defesa do Flamengo limitou o time a 15 pontos no segundo quarto, e Elinho, seu principal jogador, teve uma manhã complicada (2/8 nos arremessos de quadra e 0/3 nas bolas de três).

Bastou o Alvinegro aumentar a intensidade para que o volume de ataque do Flamengo desaparecesse — e com ele, a vantagem de 16 pontos. Os quase 1.800 torcedores presentes no ginásio Wlamir Marques foram à loucura.

Alexey marcou a cesta que decretou a vitória do Fla (crédito: Beto Miller)

Quando o jogo chegou aos finalmentes e o aro ficou pequeno, o Flamengo entregou a bola ao seu melhor jogador: Alexey Borges. Após atuações bem abaixo nos jogos 2 e 3 — incluindo um jogo 2 em que saiu zerado —, o armador resolveu a partida com mais uma bela penetração, marcando a cesta que decretou o placar final de 80 a 78 e carimbou a passagem para as semifinais.

Até o momento, Brite, do Bauru, é o nome mais cotado para MVP da temporada. Faz sentido, pela constância do armador. Mas, desde que Alexey superou as lesões que o incomodaram no começo da temporada e do Super 8, o armador do Flamengo merece estar nessa conversa.

Sobre o Corinthians, o time precisa dar um descanso a Elinho. Ele é o motor da equipe, mas precisa respirar durante as partidas — e o elenco não conta com outro jogador capaz de manter o ritmo quando ele sai de quadra. Outro ponto importante: times de camisa precisam de um grande momento para consolidar um projeto de basquete. O Botafogo tem a Sul-Americana e o quarto lugar de 2019; o São Paulo tem a BCLA, o Super 8 e o time de Caboclo e Marquinhos em 2021. E o Corinthians? Se vencesse hoje e a série, o Timão estaria entre os quatro primeiros, com vaga na Sul-Americana ou na BCLA, e ainda teria uma vitória sobre o Fla para “levar” para a próxima temporada. Arrisco dizer: até o Corinthians ter esse momento, o projeto não vai empolgar. Está no caminho certo com a boa comissão técnica de Jece Leite. Falta pouco — mas paciência é um luxo que time de camisa não tem.

No oscilante Flamengo, a boa notícia é a consistente participação de Shaq Johnson Sr. Ele teve média de 15,5 pontos na série contra o Corinthians — fundamentais para essa passagem à semifinal.

Já na outra partida do dia, o Franca ouviu a mesma proposta do “Silvio” e mandou um sonoro “SIM”. O campeão do NBB tropeça nas suas cansadas pernas e perde o jogo 4 para o Pinheiros por 72 a 66. Os francanos decidem em casa o jogo 5, mas… não sei, não…

Destaques do Flamengo:
Alexey – 15 pontos / 6 assistências

Obrigado, Marquinhos

Da área de imprensa, lá estava eu prestando atenção no que Marquinhos iria fazer

O jogo era decisivo contra o Minas. O ano: 2018. O Flamengo tinha em seu elenco estrelas como Anderson Varejão e Marcelinho. O Minas foi melhor o jogo inteiro e tinha a vitória nas mãos. Foi aí que nosso personagem mostrou toda a sua classe em quadra. Depois de decretar a prorrogação ao acertar os 2 lances-livres decisivos, marcou 12 pontos no tempo extra. Era hipnótico ver o camisa 11 marcar com arremessos certeiros e infiltrações que desafiavam a lógica. Até os últimos dois minutos de jogo, eram apenas 5 pontos. Ele fechou com 21 e vitória para o seu Flamengo. Estava na área de imprensa da Arena Carioca 2 vendo de perto Marcus Vinícius Vieira de Sousa, o Marquinhos, mostrar em quadra porque ele é um dos gigante do basquete nacional.

Hoje, 14 de maio de 2025, após a derrota seu último time, o Vasco da Gama, no jogo 3 contra o Minas pelas quartas de finais do NBB, Marquinhos se aposenta aos 40 anos como um dos maiores alas do basquete brasileiro. Carioca de nascença, Marquinhos se mudou para São Paulo aos 9 anos com a troca de emprego do pai. Aos 12, começou a jogar a basquete. Começou na categoria infantil do Monte Líbano, mas com o fim das atividades do clube passou para base do Corinthians. Em 2002, recebeu um convite para o Bauru onde conheceu Leandrinho e fez parte do time que foi campeão brasileiro daquele ano. Apesar dos convites de faculdades americanas, em 2003, preferiu ir para a Europa onde jogou no Pesaro. Foram diversas idas e vindas com o clube Europeu, intercalada com períodos que foi emprestado para o Vasco (2003), Corinthians/Mogi das Cruzes(2004) e por fim, o clube Italiano, o Sutor Montegranaro. Em 2005/2006, o Pesaro passava por uma grave crise financeira e Marquinhos fechou com o São Carlos.

Em 2006, após realizar todo período de preparação para o draft da NBA, foi selecionado pelo New Orleans Hornets. Como é atualmente, não era uma boa época para o Hornets. Nem na Louisiana, o time jogava. Devido ao furacão Katrina, o time jogava em Oklahoma City. No comando do basquete a situação também não era boa. O time não era o melhor lugar para desenvolver jogadores jovens e aposta em veteranos para ajudar o astro Chris Paul. Nesta leva, o time contrata Peja Stojaković para a posição de Marquinhos. Na temporada 2007/2008 foi trocado para o Memphis Grizzilies Frustrado com pouco tempo em quadra e a troca para o Memphis, assina com o Pinheiros em 2008.

Aqui começa a história de Marquinhos e o NBB. Assim como o jogador que procurava uma plataforma para desfilar os seus talentos, o recém-nascido NBB precisava de talentos como Marquinhos para mostrar que o basquete brasileiro estava vivo. Em 2012, ao chegar no Flamengo, o camisa 11 (em homenagem a Romário) decolou. Nos 9 anos que jogou no Rubro-negro venceu 3 premios de MVP (2013/2016/2019), 6 vezes campeão do NBB (2013-2016 e 2019), a Liga das Americas e o Mundial em 2014. Não só venceu, como foi o protagonista na década rubro-negra do NBB.

Sua saída do Rubro-negro em 2021 foi conturbada com atritos com o técnico Gustavo de Conti e uma rusga com a diretoria. O que era uma má notícia para o Flamengo, foi uma ótima notícia para o São Paulo. O jovem projeto de basquete do tricolor paulista ganhava não só um craque como Marquinhos, como um torcedor apaixonado.

Durante muito tempo, vi Marquinhos jogar pelo Flamengo. Vi momentos em que o jogador realmente não parecia feliz como na Sul-Americana de 2016 e vi momentos de felicidade como a virada contra o Instituto Cordoba em 2020. Agora, ver uma felicidade pueril, quase de uma criança, só vi quando Marquinhos conseguiu, vestindo a camisa do São Paulo, levar o tricolor para o título da BCLA. Era um misto de felicidade junto com um “não acredito” que a vida tomou esse rumo. A felicidade em estado puro. Além do Bauru de 2002, do Flamengo de 2012 a 2021, aquele time do São Paulo 2021 com Caboclo, Bennett era mais um time iconico do craque.

No Vasco, sua última passagem, trouxe legitimidade ao projeto de basquete do Cruzmaltino. Sua passagem “acelerou” o processo de maturidade do projeto e deixou sementes que esperamos ser colhidas por muito tempo no basquete vascaíno.

O duro para o basquete nacional é que não existe um novo Marquinhos. Nem de perto. Em quadra, não temos um ala pontuador e decisivo e fora dela, não temos um talento nascente que possa ser o próximo nesta linhagem de grandes alas.

O engraçado de quem acompanha basquete é que você passa grande parte do seu tempo, dias, meses, anos, acompanhando pessoas que não necessariamente são da sua família ou mesmo tem relações de amizade. Vai ser estranho não ter Marquinhos em quadra pelo NBB. Ele é tão parte intrínseca do campeonato. Ele é parte pelas suas cestas, pelas reclamações da arbitragem, pelos lance-livres milimetricamente batidos após os dois pequenos beijos nos pulsos. O que mais sentirei falta é quando uma partida estiver complicada e a bola sobrar para o camisa 11 fazer aquele arremesso perfeito de 3 pontos, olhar para o lado e falar em uníssono com meus companheiros de cobertura: Marquinhos joga para c*****!

Flamengo x Caxias – Jogo 2 NBB 2025 – Twitter thread